Fora o riso, bastas vezes alardeado como fundamental e assim deve permanecer, o papel da comédia, admitindo o seu estatuto de arte, é forçosamente um pouco mais. O artista só é merecedor desse epíteto se for além do que lhe for pedido, do que é imediatamente reconhecível. Para lá do pântano da empatia. (Alertaram-nos alguns pensadores para a ligação promíscua entre empatia e narcisismo.) Um caminho em direcção ao inefável. Aí a comédia, esquecendo até os laços com a concisão, aproxima-se da poesia. Esse um pouco mais varia – e tem de variar – de artista para artista. A natureza do “um pouco mais” poderá ser discutível, mas estou em crer que este é indispensável para a comédia alcançar o estatuto de arte.
A história – a maiúscula e a da arte, assumindo que são coisas distintas – previne-nos de que há momentos de estagnação e momentos de luxuriante produção artística. Actualmente, vivemos num momento de estagnação. Este século é uma fábrica de engendrar ecos.
O que nunca foi notado, parece-me, é o impacto que a comédia tem nesses momentos e como é decisiva no próximo passo.
Vou nomear dois exemplos ilustres. O Quixote de Cervantes e o Tristram Shandy de Laurence Sterne.
Conseguiram ambos fechar um ciclo de repetições e indicar um caminho para a fertilidade. É claro que neles está presente, em toda a potência, o lado redentor da comédia, porém esse poder de fechar um ciclo e iniciar outro vai muito além disso. Talvez este século só precise de um livro desses para sair deste ramerrame pútrido. Infelizmente, o génio cómico é o mais raro de entre todos os génios.
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