Agonizavas sem nome diante dos espelhos. Em tempos idos, a paixão tinha a tarefa de abrir as pálpebras do cadáver da arte. Fértil no teu desespero, apinhavas o poço de braços. Após assistires à execução dos corvos pela sociedade que recusava bater de frente com a morte, desceste até às catacumbas do teu século preso por arames. Essa viagem sem regresso é o que resta de ti.
Não arrancaste do silêncio a luz, nem tão-pouco ensaiaste a magia negra nas cotovias enterradas vivas. A empatia estéril, os santos de pacotilha, os activistas de domingo não te salvaram. Nada havia no discurso dos outros. Vivias o mesmo dia vezes sem conta e isso não te trouxe a perfeição nem o martelo dissonante, o quinto de Pitágoras. Nunca houve amanhã para ti.
E a carta, o silêncio radioactivo que ofereceste à tua mãe. O gesto de alcançar as tuas últimas palavras foi a única dança que vi em toda a minha vida.
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