comecemos a noite por aqui

Ignoro o que escrever no texto de inauguração do penúltimo habitat. Promessas fi-las noutras ocasiões em que os cabelos brancos eram a minoria nesta cabeça avantajada cuja cubicagem é aproveitada tão-somente pelos neurónios como salão de bailes, agastando-se até à última sinapse em coreografias de disparate. A idade não dá mostras de abrandar e em nenhum apeadeiro da minha humilde biografia senti que melhorara a ponto de agradecer a experiência. Não enriqueci de maneira nenhuma; fui inapto em vampirizar o outro à lá empreendedor. Só quis o meu sangue e não passei fome. Lá fui crescendo às mijinhas, principalmente para os lados e já retrocedendo em altura por estes dias, fintando canhestramente aves de mau agouro em pós-laboral e predadores semi-clandestinos durante a labuta; em suma, fintei a morte. Murmure-se a última parte para evitar mal-entendidos, é assim que as lendas dos arrogantes nascem. Não sei por quanto tempo continuarei com esta sorte, sorte pequena, acrescente-se; nada de tirar o sono a um deus grego. Resido em Portugal e sou precário dos cabelos aos pés, pelo que me dói a cabeça, estômago e coração e careço de tempo a fim de ler com tempo a obra de Camilo Castelo Branco. Sem que saibam, os meus átomos contribuem magramente para o PIB português sem que daí resulte grande benefício, quer para mim, quer para o mundo. Celebrar isto, quer dizer, a vidinha, é não estar muito bom da cachola. Prefiro usar as poucas folgas em outras actividades mais ociosas, tudo menos ressignificar toxico-positivamente o inferno. Não fosse o humor, paliativo a fazer as vezes de ADN de Looney Tunes, a aligeirar por instantes o peso da bigorna que me tomba nos dedos dos pés a horas certas, o meu idioma não seria senão o grito. Em última instância, o penúltimo habitat será a minha última morada antes do ponto final após o qual, segundo reza o boato, somos impedidos de abrir a boca. Uma censura contra a qual não há activistas. Também não sou hábil sequer em elucidar-vos quanto ao género, se crónica, se ensaio; frases curtas, textos avulsos, contos, se apontamentos de varanda durante os quais documentarei o quotidiano que lá em baixo arfa e esperneia. Enquanto aspirante a ser vertical, perdi muita da visão que tinha agarrado aos livros. Eis a forma mais custosa de adquirir a cegueira, dir-me-iam, se nos cruzássemos nas mesmas esquinas da vila. Fui aprendendo e desaprendendo a velocidades diferentes. É arriscado postular que cresci intelectualmente. O contrário também seria mentir-vos. Avanços e recuos, eis este tango de pestanas que é a leitura inútil, perdoem-me os mortos pela tautologia. Até que se prove o contrário, o meu nome é Roberto Gamito, completei 42 anos há coisa de dias e provavelmente já não viverei outros tantos. Não vos ocupo mais tempo; haveremos de ter outras oportunidades para estreitarmos laços. Comecemos a noite por aqui.

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