Pilhas de farpela adiadas

Tinha outros planos para esta tarde. Nos últimos dias ocupei-me em desalojar roupa antiga de guarda-fatos. É inevitável que repitamos o estafado lugar-comum: a quantidade de tralha guardada a fim de prevenir um sem-fim de cenários desmonta qualquer autoficção de minimalista. Não me recordo da última vez que saí de casa com intenção de comprar roupa. É uma actividade da qual não retiro átomo de prazer. As minhas indumentárias parecem fardas escolhidas a dedo por um desleixado. Por conseguinte, o Verão é a minha estação predilecta, calções e t-shirt e está a andar de mota. Seria inédito se se cruzassem comigo, em minha casa, (mas conhecemo-nos?) e dessem comigo todo sorrisos a escolher farpelas. Não raro é a primeira coisa que me aparece à frente. Apesar deste desencanto assíduo com os alegados poderes dos trapos, os quais nos elevam a auto-estima, nos catapultam para os píncaros da confiança, não há como fugir: amealhei demasiada roupa. Algures neste percurso fui um sonâmbulo consumista.
Roupa entretanto estragada, apertada, revelando sem nos tocar, como se tivesse nojo de nós, os nossos quilos a mais, e cores desadequadas para sujeitos de meia-idade. Dar de caras com roupa amarela foi quase uma revelação. Afinal já fui outro. Tantas camisas, dá a ideia que fui beto noutra vida. Suspeito que há mais de 10 anos que o meu corpo não vê essa peça amiga dos quadrados e dos padrões. O modesto plano para hoje era dar seguimento a esta roupa de um Roberto de outra era, separando-a por: 1) não presta vai para o lixo, 2) presta, talvez dê a alguém ou a alguma instituição, 3) nem me lembrava que isto existia, gostava tanto, talvez volte a usar, 4) se emagrecer um nadinha, está bom, 5) roupas felpudas impróprias para asmático; 6) para o meu pai (principalmente calças de ganga), 7) peças mesmo muito antigas porém boas que com sorte servem na minha namorada, tipo o casaco de fato de treino que na altura era risível e agora está na moda, todavia ela é de pequeno porte, logo preciso que averigúe se lhe assenta bem, 8) isto é meu? 9) camisa de alças que não recordo de ter comprado, ressalvando que nunca usei nenhuma, nem bêbedo em Albufeira, 10) roupa do meu período musculoso (vão fora, mas puxam-me à lágrima), 11) preciso de uma segunda opinião antes de a mandar para o lixo. Todavia interrompi tão azafamada e entusiasmante tarefa; melhor dizendo, nem cheguei a arrancar. Pus-me a tentar redireccionar o meu mais antigo podcast, Túnel de Vento, alojado no Soundcloud, e quis pô-lo no Anchor. Desperdicei mais de uma hora nesta brincadeira e fiquei pior do que estava. Quase apaguei o trabalho de mais de 8 anos. Dava-me jeito não pagar o pilim anual associado a este podcast. Espero dias menos atravancados das supostas facilidades tecnológicas a fim de continuar esta expedição arqueológica durante a qual esventro armários e gavetas em vagarosas buscas de bagatelas de outros tempos.


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