Como hei-de explicar a minha presença nesta terra de ninguém? Como há-de o funcionário saber o que vai na cabeça do chefe? Andei a ler os livros errados, nem um ensaio de resposta me ocorre. Questões deste calibre seguem incólumes desfilando à frente de pessoas dotadas de cérebro sem recearem que lhe descubram a careca. Nenhuma escola de pensamento conhecida me consegue oferecer uma resposta satisfatória quando me levanto da cama e abandono a minha namorada. Troco-a pelo trabalho sem regatear, que nem gosto por aí além. Ao menos, nas histórias antigas, os heróis pretextavam a guerra. E, como que a prefaciar a despedida, o sexo, e do bom. Os gregos ensinaram-nos e os poetas de todas as eras recordam-nos: Eros faz gato-sapato de Tanatos nestes momentos ebulientes onde a língua é posta em acto. Que tenho eu como desculpa? Labutar sem vontade a fim de trazer uns trocos para casa de molde a comer frango assado semana sim, semana não? De madrugada, quando me levanto, tento uma proeza a raiar o impossível. Levanto-me de supetão com intenção de não acordar o estrado da cama e corro de bicos de pés rumo ao telemóvel de goela aberta pelo alarme, na tentativa, quase sempre gorada, de a minha pequenita (é uma mulher de pequeno porte; não aprecia por aí além que se referencie a sua escassez de centímetros, todavia detenho certos privilégios enquanto namorado e além disso estamos num parênteses de um texto de um blog a dar os primeiros passos) não acordar. A cama interpreta a minha intenção como se fosse um literalista diante de um poema e, qual porta-Pavarotti de uma casa assombrada, ainda não desistindo do sonho, tento passar despercebido, mas logo baterei com o dedo minúsculo em algum livro espalhado no quarto, há-os aos pontapés, refiro-me aos livros, quanto aos dedos não me queixo nem invejo quem tem mais. Nos arredores de Chernobyl dá-se valor ao ar livre, pois em passando o tempo em casa, são maltratados em cada divisão pelos móveis. Mais uma situação onde se aplica o “mais é menos”. Quanto menos dedos possuirmos, menor é a probabilidade de os escavacar na mobília. A mobília barata acentuou esta problemática; ao passo que o pirata, dotado com perna de pau, reduz as possibilidades para metade, cenário que desagrada o seu papagaio que, nesses dias onde o palavrão não floresce, afina o seu discurso segundo o do beto. Já falhei numerosas vezes esta operação de me levantar silente da cama para vos afiançar: não sou ninja. Essa constatação que em tempos me entristeceria hoje desagrada igualmente a minha namorada. Não apanharei ninguém desprevenido enquanto for vivo. Depois logo se vê.
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