Dentro em breve serei banquete de vermes, corvos, cães ou canibais. As coordenadas do corpo caído ditarão o seu destino. Por conseguinte, sobrevivo, não conheço um sítio bom para falecer. Não aplaudam, acontece muito no século XXI. Fugir à morte sem ter o que fazer com a vida é um disparate. Sobrevivência é a actividade com mais praticantes por estes dias. Conhecendo-me como me conheço, não vou preparar ninguém. Sabes, X., suspeito que daqui a três semanas será o desfecho do meu mal-estar. Acontecerá, isso é certinho, no momento mais ridículo, enquanto tento retirar a bolacha recém-papada colada aos molares, acastanhado-os, ou a tropeçar num degrau de uma igreja, sítio pouco frequentado pelos meus pés profanos, enquanto ouço funk brasileiro a fim de espantar os espíritos puritanos, e tombo pela última vez auxiliado na queda pelos santos, pois nesse caso há disponibilidade da parte deles (se for carregar mobília rumo ao terceiro andar, nem uma mão semi-amiga).
Siga enterrá-lo, ouvir-se-á logo rente ao Roberto, que amanhã é dia de trabalho e as honras a um camarada são incompatíveis com a produtividade.
Isto é vida? Eis uma questiúncula que já encontra um grande auditório. Uns gatos-pingados que acorrem em direcção às cadeiras vazias quais cães para as bolas, pelo que é evitável retirar interpretações de grande envergadura.
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