O caos do nosso tempo, palimpsesto de todos os anteriores, fenda incicatrizável por onde se assoma uma chusma de mãos carnívoras, é pau para toda a obra. O medo é ubíquo de manhã à noite e do berço à cova. Dos gritos mais artísticos, ensaiados em barracões semeados em florestas que o mapa não reconhece ou em hangares onde os aviões apinhados de turistas desertaram há muito, às mensagens mais correntes e mastigadas fazendo as vezes do silêncio em torno de bocas ansiosas, há-de surgir um ângulo inédito pelo qual observaremos daí em diante o abismo. Dos conhecimentos especializados engendrados pelas melhores cabecinhas do nosso século aos slogans sepultados em cartolinas e cartões, uns e outros a tresandar a lugar-comum às frases mais angulosas a ponto de não ficar nada a dever a um gume lendário. Há trânsito de palavras, um sussurrar contínuo aos ouvidos dos verbos mais luceferinos de molde a que a palavra e o gesto se conjuguem, a maioria das quais enchumaços palavrosos com os quais enchemos frases de outro modo cadavéricas. Insuflamo-las com fragmentos regurgitados por bocas célebres actuais quando citam mãos gigantes de outros tempos. Tudo do que é dito e escrito saltou de boca em boca. Sou feito de restos. Dos restos dos meus antepassados. Nada em mim está cá pela primeira vez. Se me escavasse maduramente até ao meu Big Bang descobriria um sem-fim de civilizações. Em cada homem todos os homens. Exclama-se com raiva: está tudo fodido. Reage-se onomatopaicamente à derrocada da democracia. No seu funeral damo-nos conta de que pouco ou nada sabemos das suas origens, da sua cinemática e, segundo reza a lenda, das suas múltiplas vidas. As nossas vozes íntimas, encurraladas durante décadas, transbordam se vertidas no idioma engomado do jornalista. Necessitamos delas no momento mais urgente a fim de nos agigantarmos. Mais um esforço antes de entregar tudo nas mãos da morte. Gritamos para que a metamorfose nos encontre. O mundo podia ser outra coisa. De qualquer praça pode nascer um atelier onde podemos ensaiar o homem. Primeiro o caos, de seguida o cosmos. Nem que tudo passe de entretenimento de deuses.
Deixe uma Resposta